A forma como iniciamos e construímos relações afetivas transformou-se profundamente nas últimas duas décadas. As aplicações (Apps) de encontros digitais passaram de um fenómeno marginal a uma ferramenta central na vida relacional de milhões de pessoas. Para muitos, são um meio legítimo e eficaz de conhecer parceiros; para outros, uma fonte de frustração, ansiedade e sofrimento emocional. E, por isso, esta mudança levanta questões relevantes: que potencialidades oferecem estas plataformas? E que riscos podem acarretar para o bem-estar emocional e para a saúde mental?
O que as Apps podem oferecer, do ponto de vista psicológico (quando bem utilizadas):
- Facilitar o contacto social, sobretudo em contextos de isolamento, timidez ou restrições geográficas;
- Aumentar a probabilidade de encontrar pessoas com interesses e valores semelhantes;
- Permitir maior clareza inicial sobre as intenções relacionais;
- Servir como espaço de treino de competências sociais e comunicacionais.
A investigação mostra que relações iniciadas online não são intrinsecamente menos satisfatórias do que as iniciadas offline. O fator determinante não é o meio, mas a qualidade da interação, a capacidade de intimidade e o investimento emocional.
E quando a utilização se torna problemática?
O risco surge quando as Apps deixam de ser uma ferramenta e passam a ocupar uma função central na regulação emocional do indivíduo. A lógica de seleção rápida, comparação constante e validação imediata pode reforçar padrões psicológicos disfuncionais.
Alguns sinais de alerta clínico incluem:
- Dependência de validação externa – sentir necessidade constante de matches ou mensagens para se sentir valorizado ou atraente;
- Impacto negativo na autoestima – vivência frequente de rejeição, silêncio ou ghosting (cessação abrupta de contacto sem explicação) como confirmação de inadequação pessoal, sobretudo em indivíduos com vulnerabilidades prévias, como ansiedade social, depressão ou estilos de apego inseguros;
- Uso compulsivo – dificuldade em reduzir o tempo de utilização, mesmo quando gera cansaço emocional ou frustração;
- Evitamento do envolvimento real – preferência por interações virtuais, com dificuldade em avançar para encontros presenciais ou relações mais profundas;
- Repetição de padrões relacionais disfuncionais – envolver-se sistematicamente em relações superficiais, instáveis ou emocionalmente indisponíveis;
- Aumento de sintomas ansiosos ou depressivos – sensação de exaustão emocional, desmotivação, solidão em relação às relações afetivas.
Intimidade rápida, vínculos frágeis
A facilidade com que se inicia e termina um contacto nas Apps pode dificultar a tolerância à frustração e à ambiguidade, elementos essenciais para a construção de vínculos seguros. A prática clínica mostra que estas experiências podem reativar sentimentos de abandono e reforçar crenças negativas sobre si próprio ou sobre os outros.
Do ponto de vista psicoeducativo, recomendações para um uso mais saudável:
- Clarificar intenções pessoais – antes de usar a App, é importante refletir sobre o que procura naquele momento – companhia, validação, uma relação estável?
- Estabelecer limites de tempo e envolvimento – usar a App como complemento da vida social, não como substituto;
- Evitar comparações excessivas – perfis são representações parciais, não reflexos completos da identidade de alguém;
- Observar reações emocionais – sentimentos persistentes de ansiedade, tristeza ou vazio são sinais importantes a explorar;
- Valorizar a passagem para o contacto real – relações constroem-se na interação humana direta, com tempo e presença.
O papel da intervenção psicológica
Em contexto clínico, as Apps de encontros podem ser um ponto de entrada relevante para trabalhar temas como autoestima, padrões de apego/vinculação, medo da intimidade e regulação emocional. Mais do que desencorajar o uso, importa ajudar o indivíduo a compreender a função psicológica que estas plataformas desempenham na sua vida.
As aplicações de encontros não são, por si só, benéficas ou prejudiciais. O seu impacto depende do contexto emocional, das expectativas e da capacidade de autorreflexão de quem as utiliza. Promover literacia emocional e relacional é fundamental para que estas ferramentas sirvam a construção de relações mais conscientes, seguras e significativas — e não o contrário.
A equipa da Psiquiatria Positiva pode ajudar!
Fonte imagem: Vecteezy